Crianca com Altas habilidades e superdotação: quando a rigidez cognitiva encontra a flexibilidade

Altas habilidades e superdotação: quando a rigidez cognitiva encontra a flexibilidade

October 15, 2026•4 min read

Quando pensamos em crianças com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), é comum imaginarmos crianças que aprendem rapidamente, apresentam grande curiosidade, fazem perguntas complexas e demonstram facilidade para compreender determinados assuntos.

No entanto, um desenvolvimento cognitivo avançado não significa, necessariamente, facilidade para lidar com todas as situações do cotidiano.

Algumas crianças com AH/SD podem apresentar dificuldades diante de mudanças, erros, imprevistos ou situações que fogem daquilo que imaginaram. Nesses momentos, podemos observar comportamentos associados à rigidez cognitiva.

Mas por que isso acontece? E, principalmente, como podemos ajudá-las a desenvolver maior flexibilidade?

O que é rigidez cognitiva?

A rigidez cognitiva pode ser entendida como a dificuldade de modificar uma ideia, estratégia, expectativa ou forma de agir quando a situação exige uma mudança.

Imagine uma criança que planejou exatamente como uma brincadeira deveria acontecer. Se outra criança muda uma regra, propõe uma alternativa ou simplesmente faz algo diferente do esperado, ela pode ficar muito frustrada.

Também podemos perceber a rigidez quando a criança:

  • insiste que existe apenas uma maneira correta de realizar determinada atividade;

  • apresenta dificuldade para aceitar mudanças de planos;

  • fica excessivamente frustrada quando comete um erro;

  • tem dificuldade para considerar o ponto de vista de outra pessoa;

  • insiste em uma estratégia mesmo quando ela não está funcionando;

  • demonstra grande necessidade de previsibilidade ou controle.

Isso não significa que todas as crianças com AH/SD apresentem rigidez cognitiva, nem que a rigidez seja uma característica exclusiva da superdotação. Cada criança possui um perfil único de desenvolvimento.

Por que isso pode aparecer em crianças com AH/SD?

Em alguns casos, características frequentemente observadas em crianças com altas habilidades podem contribuir para situações em que a flexibilidade é mais exigida.

Uma criança com raciocínio muito desenvolvido, por exemplo, pode construir argumentos extremamente elaborados para defender sua ideia. Quando acredita ter encontrado uma solução lógica, considerar outra possibilidade pode ser difícil.

O perfeccionismo também pode participar desse processo. Quando a criança estabelece padrões muito elevados para si mesma, um erro pode ser percebido não apenas como parte da aprendizagem, mas como algo profundamente frustrante.

Além disso, algumas crianças com AH/SD apresentam interesses muito intensos e grande envolvimento com determinados assuntos. Essa intensidade pode ser uma importante potencialidade, mas também pode tornar mais desafiador interromper uma atividade, mudar o foco ou aceitar uma proposta diferente daquela que imaginavam.

Por isso, compreender o comportamento é mais produtivo do que simplesmente classificá-lo como “teimosia”.

Às vezes, por trás de um “tem que ser assim!”, existe uma criança que ainda está aprendendo a lidar com a possibilidade de que existem diferentes caminhos para chegar a um resultado.

Flexibilidade cognitiva: uma habilidade que pode ser desenvolvida

A flexibilidade cognitiva faz parte das funções executivas e está relacionada à capacidade de mudar de estratégia, adaptar o comportamento diante de novas informações e considerar diferentes possibilidades ou perspectivas.

É ela que ajuda a criança a pensar:

“Meu plano não funcionou. O que mais posso tentar?”

“Eu pensei de um jeito, mas meu colega pensou de outro.”

“Hoje aconteceu diferente do que eu esperava, e posso encontrar uma nova solução.”

Desenvolver flexibilidade não significa ensinar a criança a abandonar suas ideias ou aceitar tudo passivamente. Pelo contrário: significa ampliar seu repertório de respostas.

A criança continua podendo defender suas opiniões, aprofundar seus interesses e buscar excelência, mas também aprende que mudar de estratégia não significa fracassar.

Como estimular a flexibilidade no cotidiano?

Pequenas experiências podem proporcionar excelentes oportunidades de desenvolvimento.

Jogos em que as regras mudam durante a atividade, desafios com mais de uma solução possível, histórias com finais alternativos, brincadeiras de “quantas maneiras diferentes podemos fazer isso?” e atividades que envolvem resolução de problemas ajudam a exercitar essa habilidade.

Os adultos também podem modelar esse processo verbalizando seus próprios pensamentos:

“Eu tinha um plano, mas não funcionou. Vou tentar de outro jeito.”

Outra estratégia importante é normalizar o erro. Em vez de concentrar a atenção apenas no resultado correto, podemos valorizar o processo, as tentativas e as diferentes estratégias utilizadas.

Perguntas como “Que outra solução poderíamos encontrar?”, “Existe outro jeito de fazer?” ou “O que podemos mudar no nosso plano?” ajudam a criança a construir novas possibilidades mentalmente.

Não precisamos diminuir a intensidade — precisamos ampliar possibilidades

Crianças com altas habilidades podem apresentar uma maneira intensa, profunda e particular de compreender o mundo. O objetivo não deve ser apagar essas características, mas oferecer ferramentas para que consigam utilizá-las de maneira cada vez mais funcional.

Quando trabalhamos a flexibilidade cognitiva, ajudamos a criança a compreender que uma mudança de plano não precisa significar que tudo deu errado; que um erro pode trazer informação; e que duas pessoas podem encontrar soluções diferentes para o mesmo problema.

Na CogniAcademy, trabalhamos habilidades como flexibilidade cognitiva, planejamento, controle inibitório, resolução de problemas e regulação emocional por meio de experiências lúdicas e intencionais.

Porque desenvolver o potencial de uma criança não significa apenas estimular aquilo que ela já faz muito bem.

Significa também ajudá-la a construir as habilidades necessárias para pensar, adaptar-se, lidar com desafios e descobrir novos caminhos.

Tais Moroz

Tais Moroz

Psicóloga, Fundadora da Cogni Academy Psicóloga Clínica, Neuropsicóloga, Psicopedagoga, Neurofeedback, Brainspotting com mais de 25 anos de experiência na área clínica e de intervenções.

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